ZEEBO: o console brasileiro que tentou driblar gigantes com jeitinho tupiniquim
O nascimento de um sonho nacional: o Zeebo
Poucos momentos marcaram tanto a história gamer brasileira quanto o anúncio do Zeebo, um console que chegou com a promessa quase heroica: ser um sistema acessível, nacional e capaz de enfrentar o mercado dominado por Sony, Nintendo e Microsoft. Em um país onde videogame sempre foi artigo de luxo — com impostos que fariam até o Bowser ficar vermelho —, a proposta parecia ousada, quase épica.
O idealizador do projeto foi o engenheiro Mike Capps, junto com a empresa Tectoy, que já era praticamente um NPC lendário no Brasil graças ao Master System e Mega Drive. A Tectoy, por sua vez, uniu forças com a Qualcomm, gigante americana de tecnologias móveis, para criar algo inédito: um console focado em mercados emergentes usando conectividade 3G como base.
Isso mesmo: antes da nova geração falar de “cloud”, “always online” e “lojas digitais”, o Zeebo já estava aí… tentando fazer isso com um sinal 3G que às vezes mal funcionava até no centro das cidades.

Hardware do Zeebo: modesto, mas cheio de personalidade
O coração do Zeebo era tão peculiar quanto sua proposta. O console usava um chipset Qualcomm MSM7201A, um processador de arquitetura ARM muito mais próximo de um smartphone do que de um console tradicional. Ele trazia:
- CPU ARM11 de 528 MHz
- GPU Adreno 130
- 1 GB de armazenamento interno (sim, UM gigabyte)
- Suporte exclusivo à conectividade 3G embutida
Enquanto Xbox 360, PlayStation 3 e Wii disputavam o mercado global com HDs generosos, processamento parrudo e gráficos em alta definição, o Zeebo tinha ambições mais humildes. Seu alvo era um campo de batalha diferente: países onde consoles mainstream custavam o equivalente a uma nave do Star Fox.
A ideia era genial no papel: jogos acessíveis, distribuição digital sem mídia física e um console barato. O problema é que, na prática, era difícil competir quando seus rivais ofereciam experiências muito superiores.

Os concorrentes na época: uma luta desigual
O Zeebo foi lançado em 2009 no Brasil, em um momento nada amigável. Seus concorrentes diretos eram:
- Nintendo Wii – já um fenômeno global, barato e extremamente popular
- Xbox 360 – potência gráfica, comunidade forte, multiplataformas
- PlayStation 3 – Blu-ray, exclusividades pesadas, marketing agressivo
Comparativamente, o Zeebo era… bem, uma espécie de GBA turbinado tentando enfrentar três Super Saiyajins ao mesmo tempo. Sua GPU Adreno 130 era significativamente inferior aos chips gráficos dos concorrentes, e seus jogos lembravam títulos iniciais do PS2 ou até do Dreamcast — enquanto o mundo já se acostumava com HD, shaders e física avançada.

Como eram os jogos do Zeebo?
Aqui está a parte mais fascinante: todos os jogos do Zeebo eram distribuídos digitalmente via 3G, sem necessidade de Wi-Fi, cabo ou PC. A loja “ZeeboNet 3G” vinha integrada ao sistema, e os downloads eram gratuitos — quer dizer, o tráfego de dados. Os jogos tinham preços relativamente baixos, criando uma estratégia inédita para a época.
A grande maioria dos títulos era desenvolvida por estúdios nacionais, com algumas parcerias internacionais para reforçar o catálogo. Empresas como Tectoy Digital, Kiseki, Skyworks e Pipe Studio criaram muitos dos games disponíveis.
Graficamente, a maioria dos títulos misturava estilos de PS1, N-Gage e jogos mobile da época. Ainda assim, vários deles tinham carisma e eram surpreendentemente divertidos dentro de suas limitações.










Os principais jogos do Zeebo
Pelo menos dez títulos marcaram o catálogo:
- Double Dragon – Uma reimaginação moderna do clássico beat ’em up.
- Resident Evil 4 Mobile Edition – Um dos maiores chamarizes do console.
- Need for Speed Carbon: Own the City – Versão mobile turbinada para o Zeebo.
- Quake – Sim, o Zeebo rodava Quake. E até que rodava bem.
- Crash Nitro Kart 3D – Divertidíssimo e um dos mais populares.
- Prey: Invasion – FPS com cara de jogo mobile, mas sólido.
- Treino Cerebral – Uma das tentativas de apelar ao público casual.
- Rolimã Racing – Talvez o título mais brasileiro possível.
- Zeebo Extreme Jetboard – Parte da linha “Extreme”, forte no catálogo.
- Zeebo Extreme Tennis – Outro jogo da série, focado em controles de movimento.
O curioso é que muitos jogos eram adaptações aprimoradas de versões mobile existentes, mas com melhor resolução e performance.
As vendas e recepção do Zeebo
Infelizmente, o mundo real foi mais cruel do que os sonhos dos desenvolvedores. O Zeebo vendeu pouco no Brasil — estima-se entre 25 e 30 mil unidades, um número modesto para qualquer mercado de consoles. No México, onde também foi lançado, a performance foi ainda mais tímida.
A recepção do público foi mista. Muitos jogadores elogiaram a coragem do projeto e sua proposta inovadora, mas o preço inicial era alto para o hardware oferecido. Além disso:
- Jogos pareciam simples para a época
- Catálogo limitado
- Performance inconsistente
- Competição muito mais forte
Em 2011, apenas dois anos após seu lançamento, o Zeebo chegou ao fim.
Antes do Zeebo, o Brasil já tinha o Telejogo
Embora muita gente diga que o Zeebo foi o “primeiro console brasileiro”, isso não é verdade. O verdadeiro pioneiro foi o Telejogo, lançado em 1977 em parceria entre Philco e Ford.
O Telejogo era um console dedicado, baseado em tecnologia analógica, com jogos como:
- Futebol
- Tênis
- Paredão
Tudo variava de intensidade por potenciômetros, com gráficos formados por quadrados e linhas. Era uma espécie de Pong brasileiro — simples, mas revolucionário para sua época e completamente produzido aqui.
O Zeebo, portanto, não foi o primeiro console brasileiro… mas certamente foi o mais ambicioso.

Curiosidades, histórias estranhas e momentos icônicos
- O Zeebo tinha controles com sensores de movimento similares ao Wii. Pouca gente lembra disso.
- O chipset do console era tão próximo de celulares que alguns desenvolvedores chamavam ele de “smartphone sem tela”.
- Um dos objetivos era combater a pirataria — algo praticamente impossível no Brasil dos anos 2000.
- O Zeebo tinha um simulador de rolimã. Isso, por si só, deveria lhe garantir um monumento em praça pública.
- O console recebeu várias versões de jogos clássicos, mas poucos eram ports diretos — quase tudo precisava ser refeito do zero.
- O sistema 3G era gratuito e ilimitado. Algo muito à frente da época… e que custou caro à empresa.
- O anúncio original prometia expansão global. No fim, só Brasil e México receberam o console.
- O jogo Zeeboids permitia criar avatares e competir online, mas poucos jogadores estavam conectados.
- A rede ZeeboNet era operada pela Claro no Brasil e pela TelCel no México.
- O console chegou a ser usado em projetos educacionais, com jogos de matemática e português.
- Houve planos para lançar no mercado chinês, mas nunca se concretizaram.

O legado do Zeebo
Mesmo com suas falhas, o Zeebo deixou um impacto incontestável. Ele trouxe uma geração de desenvolvedores brasileiros para o mercado, reforçou a ideia de distribuição digital e mostrou que o Brasil podia, sim, sonhar grande no mundo dos games. Virou lenda, virou meme, virou estudo de caso — e, acima de tudo, virou um símbolo da criatividade nacional tentando sobreviver em um mercado implacável.
Pixel Nostalgia
Relembrando o melhor da era 8 e 16 bits — um byte de cada vez.
Explicando um pouco mais sobre o jogo vai um video interessante aqui que fala sobre o console: