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O Caos Absoluto de Street Fighter II: Rainbow Edition

Feche os olhos por um segundo e viaje no tempo de volta para o início dos anos 90. Você está em um fliperama de rodoviária, numa locadora de bairro ou naquele boteco com cheiro de fritura onde as fichas custavam as moedas do pão. A tela do gabinete de fliperama pisca com aquele letreiro familiar da Capcom, mas quando a luta começa, o ritmo parece frenético demais. Do nada, o Ryu solta um Hadouken que faz a curva no ar e começa a te perseguir pela tela. O Zangief, normalmente aquele brutamontes lento e pesado, cruza o ar na velocidade da luz para te agarrar e aplicar um pilão destruidor. O que estava acontecendo? Você não estava jogando o clássico original, você tinha acabado de colocar sua suada ficha em Street Fighter II: Rainbow Edition.

Vai lá Ken tente fugir desta.
Vai lá Ken tente fugir desta.

Esse título não é apenas um jogo, é uma lenda urbana palpável que se tornou realidade absoluta nas máquinas de fliperama por todo o Brasil e pelo mundo. Naquela época, a pirataria nos arcades não era apenas uma questão de copiar o código fonte, mas sim de subvertê-lo completamente. Street Fighter II: Rainbow Edition surgiu como um bootleg absurdo, criado por hackers em Taiwan em 1992, que pegaram a versão Champion Edition original e decidiram que limites de física, balanceamento competitivo ou bom senso eram apenas obstáculos chatos. A ideia era entregar o mais puro, descontrolado e divertido caos digital que o seu dinheiro poderia pagar.

Ken aprendeu com o Guile e veio demonstrar pro Zangief.
Ken aprendeu com o Guile e veio demonstrar pro Zangief.

Se você viveu intensamente essa época, sabe muito bem que enfrentar um amigo nessa máquina específica era um teste definitivo para qualquer amizade. Uma das características mais insanas e marcantes de Street Fighter II: Rainbow Edition era a bizarra possibilidade de trocar de lutador no meio do combate. Isso mesmo! Se o seu Ken estivesse tomando uma surra homérica no canto da tela, bastava apertar o botão de Start e, em um piscar de olhos mágico, você se transformava no Blanka, no Guile, ou até mesmo no apelão do Bison, pronto para revidar. Isso mudava completamente a dinâmica de qualquer estratégia, transformando cada round em uma roleta-russa de golpes especiais desgovernados, risadas e gritaria no fliperama.

Falando em golpes especiais, a física desse jogo parecia ter sido programada pelo cientista do De Volta para o Futuro depois de tomar muito café. Em Street Fighter II: Rainbow Edition, você podia soltar projéteis livremente pelo ar. Você pulava com o Ryu e, no ápice do salto, disparava múltiplos Hadoukens que desciam cruzados, abrindo espaço para um combo infinito e indefensável. E os famosos projéteis teleguiados? Eram um pesadelo e uma dádiva. Ver o Sonic Boom do Guile dar a volta completa na tela, parecendo um míssil de calor dos filmes do Rambo ou do Exterminador do Futuro, e atingir as costas do adversário gerava reações incontroláveis e até ameaças de desligar a máquina da tomada do bar.

A grade é algo que esta apenas em sua cabeça, se você realmente a imaginar, ela existirá..... coisa de doido...
A grade é algo que esta apenas em sua cabeça, se você realmente a imaginar, ela existirá….. coisa de doido…

A velocidade geral do jogo também foi brutalmente alterada. Tudo era incrivelmente acelerado. O Zangief, que era o terror dos jogadores inexperientes no título original devido à sua lentidão, aqui virava um verdadeiro demônio voador, executando seus pilões em frações de segundo e cobrindo distâncias humanamente impossíveis. Não havia tempo para pensar ou planejar, apenas para reagir e martelar os botões o mais rápido possível, rezando firmemente para que o microswitch do manche direcional não quebrasse logo na sua vez de jogar.

Não o Dhalsim não esta soltando fogo pelos joelhos, é apenas mais uma bizarrice deste jogo.
Não o Dhalsim não esta soltando fogo pelos joelhos, é apenas mais uma bizarrice deste jogo.

O mais fascinante de toda essa história é o impacto oficial, histórico e duradouro que essa insanidade teve no mundo corporativo dos games. A febre de Street Fighter II: Rainbow Edition e de outros hacks semelhantes foi tão avassaladora que a própria Capcom, ao ver o sucesso financeiro absurdo que essas versões turbinadas faziam, percebeu rapidamente que os jogadores queriam exatamente aquilo: mais velocidade, golpes aéreos e ação frenética. Foi esse verdadeiro “hack de rodoviária” que serviu como o grande empurrão e inspiração para a Capcom desenvolver o icônico e oficial Street Fighter II’ Turbo: Hyper Fighting. Ou seja, o caos pirata das ruas moldou para sempre a história oficial da franquia mais amada e reverenciada dos jogos de luta.

Hoje, olhar para trás e lembrar das tardes gastas em Street Fighter II: Rainbow Edition é resgatar uma parte muito essencial da nossa cultura gamer raiz. É lembrar com carinho de quando a gente não se importava com balanceamento de eSports ou hitbox perfeitamente desenhada pela produtora, mas sim com a emoção genuína de soltar um Shoryuken triplo e ver a tela inteira encher de fogo.

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